PDA

Ver Versão Completa : ERNEST HEMINGWAY, uma descrição extensa de como ele idealmente passaria sua velhice (perfil da revista New Yorker)



Silvio Britto
20-07-2015, 18:13
“Quando for velho quero ser um velho sábio, que não seja chato”, disse ele, fazendo uma pausa enquanto o garçom colocava diante dele um prato de aspargos e alcachofra e servia o Tavel. Hemingway provou o vinho e assentiu com a cabeça para o garçom.

“Gostaria de ver todos os novos lutadores, cavalos, balés, ciclistas, damas, toureiros, pintores, aviões, filhos da puta, personagens de cafés, grandes putas internacionais, restaurantes, anos de vinho, notícias, e nunca mais ter de escrever uma linha sobre nada disso”, disse ele.

“Gostaria de escrever muitas cartas para meus amigos, e receber cartas de volta. Gostaria de fazer amor bem até os 85, como Clemenceau. E o que gostaria de ser não é Bernie Baruch. Não sentaria em bancos de praça, apesar de poder caminhar no parque de vez em quando para dar de comer aos pombos, e também não teria uma barba comprida, para que houvesse um velho que não fosse parecido com Shaw”.

Ele parou e passou as costas da mão na barba, olhando para o salão. “Nunca conheci o senhor Shaw”, disse ele.

“Também nunca fui às cataratas do Niágara. De qualquer modo, gostaria de correr de charrete. Não dá para ser um dos melhores nesse esporte se você não tiver mais de 75 anos. Aí eu poderia arrumar um time jovem, talvez, como o senhor Mach. Só que eu não sinalizaria com um programa – para quebrar o padrão. Não decidi com o que sinalizaria. E, quando tudo se acabar, serei o cadáver mais lindo desde Pretty Boy Floyd. Só os idiotas se preocupam em salvar a alma. Quem diabos deveria se preocupar em salvar a alma quando o dever do homem é perdê-la de forma inteligente, da maneira como você venderia uma posição que está defendendo, se não consegue mantê-la, tão caro quanto possível, tentando fazer dessa posição a mais cara jamais vendida. Não é difícil morrer.” Ele abriu a boca e riu, primeiro sem som, depois alto.

“Chega de preocupações”, disse ele. Com a mão, ele pegou um aspargo grande e olhou para ele sem entusiasmo. “É preciso ser um homem muito bom para fazer sentido quando se está morrendo”, disse ele.